Como mudar as velhas histórias – The Mubarack Way

Como mudar as velhas histórias – The Mubarack Way

Como consultor, vivo ouvindo histórias. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Reais ou irreais, estas histórias povoam a rotina de todas as empresas, são ditas e repetidas com frequência e mesmo histórias falsas, após tantas repetições, passam a ser encaradas como verdadeiras e atrapalham um bocado a evolução das organizações. Elas passam a acreditar nas suas próprias histórias.Vamos a três exemplos reais:EXEMPLO 1 História falsa,repetida a todo momento: “nossa empresa paga abaixo da média do mercado, estamos em uma região com baixo nível de mão de obra e esta é a razão do turnover alto, das falhas constantes na fábrica e dos problemas de qualidade”.Consequência da história falsa: turnover alto e desperdício muito grande na fábrica são aceitos como uma sina e tolerados pela administração. A empresa enfraquece paulatinamente.O que fazer: no caso desta empresa, fizemos uma pesquisa detalhada de mercado e vimos que estávamos abaixo da média da região em alguns cargos, em outros acima e em mais outros, muito acima. Elaboramos um plano para adequação da matriz salarial apenas onde era necessário. O aumento foi insignificante, mas a história parou de ser contada, pois já não servia como desculpa. Fizemos também visitas detalhadas em outras empresas da região e vimos excelentes resultados de produtividade com os mesmos perfis de pessoa. A história da mão de obra ruim também foi destruída e perdeu seu glamour. Revisamos nosso processo de seleção, vimos que trabalhávamos com ferramentas muito pobres e melhoramos o treinamento em liderança, pois nossos chefes estavam despreparados para formar equipes. Também implantamos avaliação de desempenho bimestral e ensinamos ferramentas de feedback. Na fábrica, revisamos os processos e descobrimos falhas rotundas de manutenção, de compra de equipamentos, de treinamento e de compra de matéria-prima. Planos foram elaborados para mitigar a influência de cada um destes fatores na qualidade.Conclusão: não acreditamos nas velhas histórias que paralisavam a melhoria. Não mais as aceitamos como sina. Quebramos um a um os paradigmas arcaicos. Obviamente, as coisas melhoraram.EXEMPLO 2 História falsa: as vendas caíram porque os preços internacionais também desabaram, o poder aquisitivo em nosso setor diminuiu, as importações nos matam e o mercado encolheu.Consequência da história falsa: redução do faturamento e, mais grave, das margens. Sentimento de impotência e de frustração. Desorientação da equipe. Desânimo.O que fazer: mapeamos o mercado de forma muito mais detalhada, aumentamos a comunicação entre vendas e produção para resolver problemas de qualidade, conseguimos reduzir custos e preços, ficamos mais competitivos, passamos também a importar e prestar serviços e destruímos o mito de que o mercado encolheu. Conclusão: recuperamos margens e faturamento. AS velhas histórias? Ninguém lembra mais delas.EXEMPLO 3 História falsa: o diretor de RH comentou comigo que o presidente da empresa era “ciclotímico”, não deixava nenhuma consultoria concluir seis meses sequer de trabalho. Também me contaram que os problemas de qualidade de um determinado produto eram praticamente insolúveis com a atual tecnologia e que o endividamento muito alto impossibilitava qualquer plano de investimentos, por mais tímido que fosse. Além disto, disseram que o fato do produto ser sazonal “obrigava” a empresa a conviver com seis a oito meses de prejuízo e que, fundamentalmente, dependiam de um bom verão para ter lucros.Consequência da história falsa: empresa totalmente apática, cada gerente no seu canto, reclamações surdas nos corredores e para o consultor, resultados cada vez piores, clima péssimo.O que fazer: dar um choque de ordem na empresa, implantar todos os elementos do sistema integrado de gestão, demitir um diretor (aquele que falava mal do presidente), reorganizar o organograma, blindar um pouco mais a figura do presidente, demitir 40 pessoas que quase nada mais agregavam naquele momento, a maioria gestores, reduzir brutalmente todos os custos possíveis, substituir o chefe da fábrica com problemas “insolúveis” de qualidade por alguém jovem e sem as travas das velhas histórias, renegociar as dívidas com os bancos mostrando as ações concretas que estão sendo tomadas, repassar os ganhos com a redução de custos para o preço dos produtos tornando-os mais competitivos, importar e produzir produtos que fujam da sazonalidade do inferno da obrigação de um “verão muito quente” e comunicar com entusiasmo e seriedade a nova situação para os que ficaram.Conclusão: em menos de 36 meses, a empresa reduziu estoques, pagou dívidas, recuperou crédito, investiu, tornou-se mais padronizada, reduziu os defeitos “insolúveis”, o presidente mostrou-se satisfeito e não interrompeu meu trabalho e a sazonalidade deixou de ser uma velha desculpa histórica para fazer parte apenas do folclore. Algum tempo mais tarde, não se toleraram mais os prejuízos durante os meses de baixa, simplesmente porque estes não mais existiam e prejuízos nunca devem ser tolerados ou encarados como um destino certo e cruel. Substituir as velhas histórias por padrões concretos e animados de desempenho é o que se deve fazer de forma obstinada. Velhas histórias, no final das contas, apenas protegem desanimados e preguiçosos e queimam o dinheiro da empresa.Texto – The Mubarack Way – 01/08/201202/08/2012 – 11:50